A Carreira Proteana: flexibilidade como estilo de trabalho

Em quais momentos da sua vida você parou seriamente para refletir sobre o que espera de um trabalho? Tente se lembrar. Para a maioria das pessoas, isso acontece poucas vezes. Em geral é quando alguém nos pergunta, enquanto ainda somos crianças, o que queremos ser quando crescermos. Ou então mais tarde, quando vamos chegando perto dos 18 anos e querem saber o que vamos estudar na faculdade. Depois perguntam sobre a nossa área de especialização ou sobre em qual empresa queremos trabalhar.

Essas perguntas costumam ser chatas e gerar ansiedade, pois sabemos que elas são importantes, mas que não têm uma resposta fácil. Muitas vezes, a melhor resposta que encontramos não traz nem certeza nem tranquilidade. Muitos então acabam escolhendo uma carreira sem muito conhecimento e reflexão pra “ver no que dá”. Se a pessoa teve sorte, ótimo! Se não, questionamentos de carreira vão continuar a assombrá-la, mas, dessa vez, o questionamento virá de dentro de si mesmo.

Quem não quer deixar a satisfação profissional a cargo da sorte precisa, cedo ou tarde, encarar essa luta e conhecer melhor suas reais opções. Para isso, é necessário se conhecer bem, identificar alternativas e explorá-las, mas também entender qual estilo de carreira mais atrai você.

Carreira Tradicional

No século passado, pelo menos até meados dos anos 80, a carreira nada mais era que o crescimento de uma pessoa dentro de uma organização. Ou seja, os trabalhadores jovens ingressavam em uma empresa em um cargo “baixo”, com pouca vivência anterior, adquiriam experiência e iam gradualmente subindo para cargos de maior responsabilidade, deixando funções de execução e assumindo funções de liderança.

Segurança e estabilidade eram valores naquela época, e os profissionais buscavam empresas em que pudessem ficar a vida toda ou, pelo menos, boa parte dela. Por consequência, as oportunidades de crescimento eram limitadas àquelas existentes na organização escolhida pelo profissional.

Já há algumas décadas, e hoje em especial, esse modelo não reflete mais as possibilidades de trabalho no Brasil e no mundo. Contudo, ainda assim, muitas pessoas com mais experiência viveram em épocas em que a entrega da carreira nas mãos de uma organização ainda era desejável. Segurança, estabilidade e previsibilidade eram os valores predominantes. O resultado é que ainda hoje podemos ser influenciados por uma concepção de mundo que não reflete mais nossa realidade e podemos acabar entrando nessa “linha de produção” de carreira sem mesmo perceber. Aí a história é aquela: escolha um curso superior, escolha uma especialidade, entre numa grande empresa, ganhe dinheiro, se reproduza e pronto, descanse em paz. Se isso soa bom para você, ótimo! Siga esse esquema e seja feliz! Se não, quero trazer algumas ideias sobre como você pode construir sua carreira.

Carreira Proteana

Imagine uma carreira em que o mais importante é a experiência e a conexão com seus valores, com trabalhos que tenham sentido e utilidade além de apenas receber o pagamento no fim do mês. Imagine-se passando por diversas empresas, intercalando sua rotina com trabalhos autônomos. Uma busca pelo desafio, pela motivação e responsabilidade pelo autodesenvolvimento. Essas são cenas que ilustram o que é uma carreira Proteana.

Proteus era um Deus grego das águas, filho de Tétis e Oceano, e tinha o poder de alterar sua forma de acordo com sua própria vontade. Na carreira Proteana é assim: você faz as suas próprias escolhas, não só uma única vez para o resto da vida, mas em várias fases da sua vida para que elas se adequem a diferentes momentos pelos quais você passar. Uma mulher pode se formar em Comunicação Social, trabalhar nos primeiros anos após formada com produção audiovisual de maneira autônoma, ser contratada por alguns anos por uma ONG quando desejar mais estrutura e troca com outros profissionais, e buscar um trabalho público se em algum momento a estabilidade for uma prioridade para ela.

Parece lindo, não é? E é realmente positivo que essa oportunidade esteja cada vez mais disponível. Mas, com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades. Muitas das atribuições que antes eram das empresas na carreira tradicional passam para as mãos das próprias pessoas na carreira Proteana, e não é todo mundo que tem disposição para assumir essas responsabilidades. Você teria? Veja abaixo um resumo dos dois tipos de carreira e reflita[1].

Carreira Tradicional Carreira Proteana
Indivíduo é dependente da organização. Autonomia do indivíduo em relação à organização.
Emprego de longo prazo. Trabalho em poucas organizações. Estabilidade empregatícia reduzida. Trabalho em várias organizações para manter o alinhamento com os valores e objetivos da pessoa.
Características burocráticas. Mais negociação. Predomínio de redes de relacionamento.
Ascensão hierárquica com o passar dos anos. Necessidade de constante qualificação.
A empresa define temas e formatos de desenvolvimento para o funcionário. A própria pessoa define os temas a serem estudados de acordo com seu interesse e/ou necessidade e providencia sua atualização com o apoio da organização ou por conta própria.
Foco no desenvolvimento formal: treinamentos, cursos, graduações e especializações. Cresce a importância do desenvolvimento através da prática, experiência, projetos e relacionamentos.
Escolha por empregos que atendam a requisitos básicos: salário, tipo de atividade relacionada ao curso de graduação, horário de trabalho, status, etc. Escolha por trabalhos que tenham significado e estejam alinhados aos valores e objetivos pessoais.
As organizações são vistas como fonte de estabilidade, segurança e fonte de renda. As organizações são vistas como fontes de desafios e oportunidade de desenvolvimento de habilidades e relacionamentos.
Vida pessoal e profissional separadas. Vida pessoal e profissional correlacionadas e busca por harmonia e coerência entre elas.
Planejamento de carreira com foco no que é oferecido pelo mercado. Construção de carreira a partir de uma visão de futuro compatível com os objetivos de vida e carreira. Criação de oportunidades.

E aí, com qual delas você mais se identificou? Se você curtiu a carreira Proteana, veja abaixo 5 dicas importantes para você se dar bem nela.

Dicas para se realizar em uma carreira Proteana

1.      Conheça-se profundamente

A carreira Proteana é cheia de decisões difíceis, algumas até arriscadas. Nessas encruzilhadas, o autoconhecimento é tão importante quanto um mapa e uma bússola quando você está perdido (ou como o GPS quando você pega uma estrada desconhecida). Ter claro o que realmente importa para você, quais são seus valores, necessidades e objetivos de vida e de carreira é fundamental para lidar com as incertezas de maneira produtiva e eficaz. Para isso é fundamental investir no autoconhecimento: muitas leituras e apoio profissional de um coach, orientador de carreira, psicoterapeuta, mentor, etc.

2.      Invista em empregabilidade

Você já ouviu falar em empregabilidade? Ela é a capacidade de adaptação e desenvolvimento do profissional às necessidades e dinâmicas do mercado de trabalho. Em outras palavras, é a capacidade de se manter relevante e desejável pelas empresas, pelos clientes e parceiros profissionais.

Lembre-se, não é porque uma pessoa segue um estilo proteano de carreira que ela pode se desconectar da realidade do mercado (a menos que ela queira viver sem dinheiro). O proteano adapta-se sim ao mercado, com o diferencial de manter a conexão com sua essência e seus valores, com alguma flexibilidade.

Para cultivar a empregabilidade, é preciso atualizar-se constantemente sobre sua área de interesse. Estar por dentro das inovações, estudar e ler a respeito, fazer treinamentos e cursos, investir em formações, participar de eventos e acompanhar o trabalho de pessoas referências naquele tema. Se você dormir no ponto, vai perder o trem, o ônibus, a carona…

Ser empregável também quer dizer que você deverá ter um cuidado especial com a saúde, com o marketing pessoal e com a ética. Afinal, você precisa de saúde para viver e trabalhar bem, precisa fazer um bom marketing pessoal para ser conhecido e demonstrar com energia o que você tem para oferecer, e precisa de uma base ética para construir uma carreira sustentável.

3.      Desenvolva sua rede de relacionamentos

Mesmo que você decida não depender de instituições ou empresas, é impossível ser completamente independente de outras pessoas. Para quem quer uma carreira com autonomia, desafio e flexibilidade, uma rede de apoio profissional e pessoal é fundamental. Ela é o colchão de segurança nos momentos de dificuldade, sua mola impulsionadora quando você quiser alcançar novas alturas e seu “turbo” quando for o momento de ir além.

Muitas das atividades que mencionamos para desenvolver a empregabilidade podem ajudar a cultivar uma rede poderosa, colocando você em contato com outras pessoas. Cursos, treinamentos e mentorias são algumas dessas maneiras.

Outra forma sutil, mas muito efetiva, de melhorar sua rede é estar atento às necessidades das pessoas ao seu redor. Ao identificar algo que alguém precisa e está ao seu alcance, mesmo que seja algo pequeno, oferecer ajudar gera conexão e reforça o seu papel na rede dos outros.

4.      Aprenda a gerenciar suas finanças

Para que o dinamismo, versatilidade e menor imprevisibilidade da carreira Proteana não se tornem uma dor de cabeça ou motivo de tensão e ansiedade, é fundamental uma boa gestão financeira. Isso quer dizer estar atento para oportunidades de economizar, talvez morando por mais tempo com os pais, fazendo uma viagem mais barata ou deixando para comprar aquele celular ou notebook novo para outro momento.

Resumindo, é importante ter reservas suficientes para permitir que você se mantenha em um momento de transição profissional ou no início de um novo projeto. Por outro lado, pode ser necessário, em algum momento, manter um trabalho formal que permita o desenvolvimento paralelo de outras atividades profissionais. Não fique sem um plano B para não passar aperto.

5.      Planeje

Outro ponto fundamental para o adepto de Proteus é o planejamento. Se você não se planejar, ninguém vai fazer isso por você. Isso não quer dizer que você precisa ter certeza definitiva do trabalho ideal que você quer atingir. Se você tiver, ótimo, mas se não tiver, ok também. O importante é saber a direção que você quer explorar e como fazer isso de maneira sustentável.

Novamente aqui pode ser interessante buscar profissionais como coaches, mentores ou alguém mais experiente na sua área que ajude você a traduzir o mundo dos sonhos em ações e objetivos reais que podem aproximar você da sua vida desejada. Pense (e escreva) suas metas de longo, médio e curto prazo. Tente defini-las da maneira mais clara e concreta possível, de modo que não gerem dúvidas ou fiquem sujeitas a diferentes interpretações. Mesmo que você não saiba qual é o destino final, estabeleça pelo menos objetivos de exploração e de investigação. No início da carreira ou quando falamos de uma transição profissional, a falta de experiência pode dificultar a definição de objetivos. Assim, seus primeiros objetivos podem ser experimentar, pesquisar e vivenciar possibilidades! Ah, já falei que você precisa ESCREVER seus objetivos?

E como uma dica extra, indico o TED talk da Bel Pesce, com 5 atitudes que podem matar seu sonho. Oriente-se pelo oposto dessas atitudes e você estará muito mais próximo de ter as competências necessárias para ter sucesso em uma carreira Proteana.

Se você se sente disposto a encarar esses desafios, é hora de dar a largada! Bom trabalho, pois é com o trabalho duro que chega a boa sorte. Como disse Guimarães Rosa: “Sorte é isso. Merecer e ter”.

[1]Fontes: adaptado de Guilherme Assunção de Andrade, 2009 que cita conteúdo adaptado de Baruch, 2004, e de Emmanuele Penha, 2010, que cita conteúdo adaptado de Hall e Mirvis, 1996.